Água e Saneamento

Saúde Comunitária

[LEGENDA] Microssistemas de abastecimento levam água encanada e potável para cada casa e cada escola na comunidade. Já são mais de 30 microssistemas e 105 km de encanamento feitos e geridos pelos próprios moradores.

Microssistemas de abastecimento levam água encanada e potável para casas e escolas. Já são mais de 30 microssistemas e 105 km de encanamento feitos pelos moradores.

Garantir água potável para o consumo doméstico das populações ribeirinhas amazônicas é ainda um grande desafio público. Apesar de a região pertencer à maior bacia hidrográfica do mundo, ainda é altíssima a incidência de doenças de veiculação hídrica e a mortalidade por viroses e diarreias agudas, relacionadas ao consumo inadequado de água do rio e à falta de saneamento básico.

Água na torneira e o fim da lata d’água na cabeça! 

SD-Saneam_.CcaComAgua3

 

 

 

cacique

No Pará, apenas 5,3% das cidades têm rede coletora de esgoto e dos 144 municípios, somente 6 tratam seu esgoto (2014, IBGE). Ou seja, todo o esgoto, inclusive o hospitalar, é lançado diretamente  nos rios, que são a única opção de acesso à água nas comunidades ribeirinhas.

Os ribeirinhos são povos das águas, acostumados ao ritmo dos rios. Mas têm sua água sem tratamento contaminada e imprópria para o consumo, seja pela ausência de rede de abastecimento e de esgoto, seja pela poluição de garimpos ou até mesmo devido ao processo natural de decomposição de matéria orgância por micro-organismos.

As principais áreas urbanas do estado contam com abastecimento de água tratada, mas nas áreas rurais, região onde atuamos, não existe qualquer infraestrutura de saneamento e abastecimento.
Toda água de consumo em comunidades ribeirinhas era levada por baldes. Crianças e mulheres carregavam latas d’água da beira do rio até suas casas para poder cozinhar, tomar banho ou lavar louça. No período de vazante, quando a água fica ainda mais distante para coleta, os moradores eram obrigados a abrir cacimbas (poços) na praia, mas a água dali retirada tampouco era potável.

 

 

O primeiro microssistema

Em 1996, com participação dos moradores de Suruacá, fizemos o primeiro microssistema de abastecimento de água na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns.  A partir de um mapeamento feito pela própria comunidade, foram identificadas todas as residências da localidade. Com ajuda técnica, foi feito um mapa e definido o ponto mais alto de Suruacá e com uma distância mínima de fossas para se perfurar o poço.
Em mutirões comunitários, os moradores escavaram o caminho para levar a rede hidráulica subterrânea para todas as casas. Assim, aprenderam juntos como funciona uma rede de abastecimento. Outra equipe trabalhava com técnicos na perfuração do poço e construção do elevado para instalara caixa d’água central.

Enquanto isso, oficinas sobre autogestão apresentaram aos moradores modelos de controle da prestação do serviço de abastecimento local. No dia da inauguração do microssistema, os próprios comunitários apresentaram um regimento de uso e definiram, entre eles, as responsabilidades e os responsáveis pela manutenção dos equipamentos.

O histórico dos projetos de saneamento nas comunidades ribeirinhas
SD-Saneam_FiltroCanoa

Tratar e filtrar a água antes de usar: 30 anos de projetos em saneamento

marilene

Antes dos microssistemas, muito trabalho foi feito. No final dos anos 80, a necessidade de um método simples e econômico que pudesse ser utilizado por todas as famílias para tratar a água do rio antes de consumi-la motivou a realização de campanhas educativas com nossa equipe e com o Circo Mocorongo, para apresentar métodos caseiros de tratamento de água.

Tratar e filtrar a água antes de usar

kitUma das primeiras medidas que adotamos desde o início e de forma emergencial, foi disseminar o uso de cloro em todas as comunidades, garantindo sua distribuição em todas as casas de forma regular. Seu uso é sempre um dos temas permanentes em todas as nossas campanhas educativas.


Especialistas da Universidade Federal do Pará (UFPA) desenvolveram um kit para fabricação de cloro com energia solar. Com apoio do BNDES, distribuímos 51 kits no programa Saúde na Floresta para todos os agentes de saúde locais.

 

 

Filtro de barro para todos

Entre 2003 e 2007, também foram entregues 5.466 filtros na região, um para cada casa e para cada escola. Assim, depois do uso do cloro, toda água para consumo humano também passou a ser filtrada. Para que aproveitassem os novos recursos, oferecemos aos moradores oficinas sobre manuseio e limpeza do filtro e atividades educativas sobre higiene e saneamento básico.

 

Por favor, onde é o banheiro?

SD-Saneam-Pedras

seucarlos

Se as grandes cidades do Brasil sofrem por falta de coleta de esgoto, imagine como é a realidade das comunidades isoladas da Amazônia. Nesses locais, o uso de pedras sanitárias ainda é um recurso importante para melhorar as condições higiênicas. Construir fossas vedadas impede contato com as fezes e ainda a entrada e saída de insetos e animais que podem transmitir doenças.
Se hoje 100% da Reserva Extrativista (Resex) Tapajós-Arapiuns e Floresta Nacional do Tapajós (Flona) têm pedras sanitárias, 30 anos atrás era comum que os sanitários fossem feitos com fossa rústica (buraco escavado no chão com pouca vedação), o que facilitava a contaminação com microorganismos fecais, sem falar no risco de viroses e verminoses.
Entre 2003 e 2007, dentro do programa Saúde na Floresta, instalamos 4.306 pedras sanitárias em 129 comunidades, graças à participação dos moradores em mutirões comunitários. Depois de oficinas prático-teóricas com 4 dias de duração, os moradores, juntamente com a equipe técnica, construíram e instalaram pedras sanitárias em todas as casas e escolas.

Atualmente, algumas comunidades da região começaram a receber programas federais de habitação que já contemplam instalações sanitárias com fossas e sépticas, uma benfeitoria complementar às moradias.

Entre 2009 e 2012, adaptamos o modelo das pedras sanitárias para a região de várzeas, evitando que as áreas alagadas durante as cheias pudessem entrar em contato com o esgoto. Na Ilha de Santa Rita, no município de Juruti, fizemos oficinas para a construção de fossas elevadas e vedadas. 

Poços semi-artesianos e água limpa

DSC08134

Em locais mais isolados, com comunidades pequenas e sem previsão de qualquer sistema de abastecimento, construímos, com a participação dos comunitários, mais de 200 poços semi-artesianos para captação de água de boa qualidade. Mais rasos que os poços artesianos, eles têm uma profundidade máxima de 30 metros e capacidade para atender moradores próximos. A água dos poços é mais protegida que as águas de rios, igarapés ou cacimbas e não entra em contato com resíduos humanos, lixo e produtos tóxicos.

Assista também:

Alguns destaques na imprensa:

  1. Revista Amazônia Viva: “Lata d’água na cabeça é coisa do passado“;
  2. Revista Radis/Fiocruz: “Não nos interessa ocupar o lugar do poder público”;
  3. Rede Mobilizadores: “A água é tudo para o povo da Amazônia“;

Trabalhos acadêmicos:

  1. Fundação Getúlio Vargas, 2007: “Comunidades ribeirinhas e o Projeto Saúde e Alegria no Estado do Pará“;
  2. Fundação Getúlio Vargas, 2003: “Projeto Saúde e Alegria: uma ensaio crítico“;

Projetos Relacionados