Ecoturismo Comunitário na Amazônia: Uma Oportunidade Única

Projeto Saúde e Alegria

Turismo de base comunitária

A importância do turismo na economia mundial é indiscutível. Segundo dados da Organização Mundial de Turismo (OMT), Conforme divulgado pela Organização Mundial de Turismo – OMT no documento Panorama do Turismo Internacional – Edição 2009, atualmente, o mercado de viagens representa 30% das exportações mundiais de serviços e 6% das exportações mundiais totais. 

Como  categoria de exportação, o Turismo se situa em 4º lugar, depois apenas dos combustíveis, produtos químicos e automóveis. Para muitos países, a atividade turística é uma das principais fontes de receita e imprescindível para a geração de emprego e renda. Apesar da previsão de que a receita do Turismo internacional no mundo tenha sido 6% menor em 2009, esse número ainda representa algo em torno de U$ 900 bilhões e as tendências para 2010 são de uma sensível retomada dos negócios.

O fluxo internacional de turistas vem aumentando continuamente – de 25 milhões em 1950; 277 milhões em 1980; 438 milhões em 1990; 682 milhões em 2000, tendo atingido a cifra de 920 milhões em 2008. Em 2009, a chegada de turistas internacionais reduziu-se a 880 milhões, 40 milhões a menos do que em 2008, resultado do desaquecimento da economia mundial ocasionada pela crise financeira. A OMT estima que a chegada de turistas internacionais chegue a 1,6 bilhões em 2020. Segundo a OMT4, o Turismo é responsável pela geração de 6% a 8% do total de empregos no mundo. De acordo com metodologia da OMT e os dados da RAIS, o mercado formal de trabalho nas Atividades Características do Turismo – ACTs, no Brasil, passou de 1,71 milhões de pessoas empregadas, em 2002, para 2,27 milhões de pessoas empregadas em 20086 , o que representa um crescimento da ordem de 32,70% em seis anos. No ano de 2008, este número correspondeu a 5,76 % do total de empregos formais acumulados no País. 

Infelizmente os dados numéricos não conseguem retratar os efetivos resultados do turismo no país, que continuam fortemente concentrados socialmente e regionalmente. 

A Amazônia, com o seu imenso potencial, continua recebendo uma parte insignificante dos visitantes, que se concentram essencialmente nas capitais e em poucos empreendimentos que pouco beneficiam a comunidade amazônica.  

O turismo é proposto, pelas organizações internacionais e pelos governos, como estratégia de desenvolvimento, de combate a fome e erradicação da miséria, mas nas suas formas mais conhecidas e difusas está longe de atender a este desafio. O turismo convencional de massa apresenta uma série de contradições, que alguns classificam de “patologias” que tem a ver com aspectos econômicos, sócio culturais e ambientais.

Conscientes das dimensões do fenômeno turismo na economia mundial e de sua potencialidade como vetor de desenvolvimento, reconhecendo que o turismo pode promover a aproximação e a paz entre os povos e o respeito das diversidades sociais e culturais, mas ao mesmo tempo preocupadas com os impactos sociais, culturais e ambientais que ele pode causar, preocupadas em garantir efetivas melhorias da qualidade de vida para as populações dos territórios nos quais o turismo se desenvolve e o aproveitamento sustentável dos recursos naturais e culturais, varias organizações no mundo inteiro promovem experiências que, com denominações diferentes, promovem princípios e conceitos de responsabilidade no turismo.

O turismo de base comunitária propõe um modelo de desenvolvimento que privilegie o ser humano, que garanta condições de vida digna a todos os cidadãos, centrado em uma cultura de cooperação, parceria e solidariedade.

Baseado nos princípios da economia solidária, o turismo de base comunitária se apresenta como alternativa aos projetos de turismo convencional, como uma oportunidade importante de valorização de práticas sustentáveis de uso dos recursos naturais e da promoção da interculturalidade.

O turismo de base comunitária pretende ser antes de tudo um momento de encontro entre pessoas e culturas diferentes e este elemento precisa ser resgatado com muita ênfase, com todas suas implicações, para sair da lógica restrita e mercantilista do turismo de massa.

No turismo de base comunitária os visitantes e as comunidades receptoras devem se dispor e preparar ao encontro; os operadores devem promover este encontro criando condições para que aconteça de forma agradável e reciproca. Informações aprofundadas a respeito da história, das tradições, da cultura e do modo de vida do outro devem ser disponibilizados para ambas as partes. De preferências devem ser realizados momentos preparatórios coletivos com os grupos de turistas e com as comunidades receptoras.

É preciso evitar vender o turismo como uma simples forma de diversão/evasão, a procura do paraíso terrestre, do exótico a todo custo ou da aventura.

O turismo precisa se integrar na economia local e no desenvolvimento territorial, evitando se tornar um elemento de desequilibro, preservando e resgatando a cultura das populações tradicionais, harmonizando-se com as atividades tradicionais, promovendo a preservação do patrimônio histórico e natural, dinamizando a economia local e promovendo oportunidades de inclusão socioeconômica.

A participação democrática de todos os atores do território no processo de planejamento e decisão é um prerrequisito para que a comunidade se beneficie efetivamente dos resultados.

O dimensionamento adequado da atividade turística em um território, levando em conta os limites de carga do local, é um elemento chave para evitar que o turismo sufoque as outras atividades, induza uma homogeneização cultural com prevalência do modelo ocidental consumista da maioria dos visitantes e possa vir a prejudicar aspectos que caracterizam o atrativo turístico.

No processo de planejamento e implantação de projetos turísticos é indispensável construir relações de cooperação éticas e solidárias entre todos os atores envolvidos. Todos precisam se comprometer com o respeito dos direitos humanos. A cooperação deve se caracterizar por respeito reciproco, confiabilidade e transparência.

O turismo precisa se integrar na economia local e no desenvolvimento territorial, evitando se tornar um elemento de desequilibro, preservando e resgatando a cultura das populações tradicionais, harmonizando-se com as atividades tradicionais, promovendo a preservação do patrimônio histórico e natural, dinamizando a economia local e promovendo oportunidades de inclusão socioeconômica.

O uso sustentável dos recursos e a justiça ambiental devem ser preocupações coletivas. Existe justiça ambiental quando todos são beneficiados pelas medidas de proteção ambiental e participam dos processos de decisão em relação às questões ambientais.

Os projetos turísticos devem construir relações de trabalho justas, no pleno respeito dos direitos dos trabalhadores, promovendo a inclusão das mulheres e das populações mais desfavorecidas e a proteção das crianças contra a exploração do trabalho infantil.

Nas relações entre os vários atores é fundamental garantir preços justos, que garantam a cobertura dos custos, a melhoria das condições de vida e o desenvolvimento da comunidade receptora.

A interação dos operadores e dos visitantes com a realidade local precisa ir além do momento da viagem, promovendo projetos que contribuam a melhorar as condições de vida das comunidades receptoras.

Para que isto aconteça precisamos substituir o turismo “morde e foge” que mede a qualidade da viagem pelo número de localidades e atrativos visitados, com viagens que incluam poucos destinos aprofundados, sem pressa, com tempo a disposição para realmente estabelecer uma relação efetiva com as pessoas e com os lugares. A opção por permanecer mais tempo em cada localidade e limitar cada viagem a visitação de uma área geográfica limitada implica também num menor impacto ambiental, reduzindo o uso de meio de transporte, principalmente do transporte aéreo.

No planejamento de infraestruturas turísticas, principalmente receptivas, é preferível optar por construções de menor porte, compatíveis com a paisagem e a arquitetura local, que utilizem preferencialmente matérias primas regionais. Para garantir a sustentabilidade do turismo é relevante a preocupação com a utilização de tecnologias apropriada para reduzir o consumo energético e promover a introdução de alternativas energéticas de baixo impacto assim como com o tratamento e a reciclagem de resíduos, e estratégias para minimizar o desperdício de água.

No planejamento e nas políticas de fomento do turismo é preciso estabelecer mecanismos que privilegiem oportunidades para as micro e pequenas empresas e a economia popular solidária local. Nos caso de investimentos de grandes grupos nacionais e internacionais, que de qualquer forma consideramos apropriados só em localidade com maior infraestrutura, quantidade de população e desenvolvimento econômico, é indispensável garantir compromissos destes com ações de educação, qualificação, inserção econômica da população local, ações que contribuam a dinamizar a economia local como por exemplo priorizar a compra de produtos locais e coparticipação na valorização e na manutenção do patrimônio histórico, cultural e natural.

O turismo de base comunitária se apresenta como uma modalidade estratégica no contexto amazônico: como forma de integração da renda para as populações, que vivem essencialmente de atividades extrativistas e de agricultura de sustentação, podendo contribuir a reduzir os impactos sobre os recursos naturais, como instrumento de valorização e preservação do patrimônio natural e cultural e de resgate da identidade cultural e como política de promoção de um modelo econômico coletivo e solidário apropriado a realidade das populações tradicionais da região.

 

 

Creative Commons Ceative Commons LOGO - Projeto Saúde e Alegria - Credits